Facções usam redes sociais para atrair jovens e exibir rotina do crime no Rio.

Brasil

As redes sociais têm se consolidado como uma das principais ferramentas de divulgação e recrutamento usadas por facções criminosas no Rio de Janeiro. Vídeos com armas, ostentação de bens roubados e mensagens de apologia ao crime circulam livremente, alcançando milhares de visualizações e influenciando jovens que, muitas vezes, nunca tiveram contato direto com comunidades dominadas pelo tráfico.

Homem conta que filho morto em megaoperação na Penha conheceu criminosos nas redes sociais — Foto: Domingos Peixoto

O caso do adolescente X., de 14 anos, morto durante a megaoperação policial no Complexo da Penha, ilustra esse fenômeno. Morador da Baixada Fluminense, ele teria iniciado contato com criminosos após interagir com perfis ligados à chamada Tropa do Urso, grupo associado a uma liderança do Comando Vermelho (CV). A partir dessas conexões virtuais, o garoto passou a frequentar áreas controladas pela facção.

De acordo com a Polícia Civil, publicações encontradas nas redes foram fundamentais para identificar a vinculação de X. e de outros jovens ao CV. Na operação, 117 suspeitos foram mortos — número que reacendeu o debate sobre a influência digital exercida pelo tráfico.

Com perfis que acumulam milhares de seguidores no Instagram e no TikTok, criminosos utilizam uma estética de glamour e poder para atrair adolescentes, segundo o subsecretário de Inteligência da Secretaria de Segurança, delegado Pablo Sartori. Ele afirma que, nos últimos anos, o tráfico passou a desenvolver uma estratégia profissionalizada de comunicação, com foco em criar uma imagem sedutora: motos e carros de luxo roubados, vida fácil e homenagens póstumas que fortalecem a identidade coletiva da facção.

Para evitar a remoção dos perfis, traficantes passaram a borrar armas, usar filtros ou cobrir partes do armamento com figurinhas infantilizadas. Ainda assim, a influência das publicações cresce. Termos como “bebel”, “55” e “57” aparecem associados a usuários que exibem celulares, joias e rotinas de assaltos, em referência aos artigos de furto e roubo do Código Penal.

Casos recentes mostram que essa exibição pública do crime tem impacto direto em investigações. Em um deles, três suspeitos presos por furtos na Barra da Tijuca já eram monitorados por manterem perfis onde se gabavam dos delitos. Um deles até se referia ao próprio grupo como “trio do ódio”.

Para especialistas, a combinação de vulnerabilidade social, apelos de status e ausência de controle familiar contribui para que adolescentes se tornem alvos fáceis. O procurador de Justiça Márcio Mothé afirma que as redes sociais se tornaram o primeiro contato de muitos menores com o mundo do crime: “O discurso de luxo e poder seduz, e isso acontece justamente na fase em que o jovem é mais influenciável.”

A disputa por seguidores também tem impulsionado a cultura criminosa no ambiente digital, observa o analista de segurança Alessandro Visacro. Ele explica que facções passaram a tratar a internet como um território de influência tão importante quanto o físico.

As plataformas, por sua vez, afirmam adotar medidas para coibir esse tipo de conteúdo. O TikTok informou ter removido todos os perfis identificados por violarem as Diretrizes da Comunidade. A Meta, responsável pelo Instagram, declarou que mantém esforços contínuos para detectar e excluir publicações que promovam ou glorifiquem organizações criminosas, além de incentivar usuários a relatarem conteúdos suspeitos.

A realidade, entretanto, mostra um desafio crescente: o crime organizado encontrou nas redes sociais um espaço poderoso para projetar seus símbolos, atrair novos integrantes e testar os limites da fiscalização digital.


Foto: Domingos Peixoto

Redação Brasil News

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