O setor do agronegócio brasileiro acompanha com atenção as negociações entre os presidentes Donald Trump (EUA) e Xi Jinping (China). O possível acordo comercial entre os dois países pode alterar a dinâmica global da soja e impactar diretamente os produtores do Brasil — atualmente o maior exportador mundial do grão.
Desde o agravamento da guerra comercial entre Washington e Pequim, o Brasil consolidou-se como principal fornecedor de soja à China. Somente em setembro, o país asiático importou 12,87 milhões de toneladas, sendo 10,96 milhões provenientes do Brasil. Nenhum embarque norte-americano foi registrado no mês — algo inédito em sete anos.
Agora, com a possibilidade de uma reaproximação entre as duas potências, o cenário pode mudar. Analistas destacam que o acordo tende a reduzir os prêmios pagos pela soja brasileira e apertar as margens dos produtores, especialmente em estados mais distantes dos portos, como o Mato Grosso.
Segundo levantamento da Cogo Inteligência em Agronegócio, a margem líquida de lucro projetada para a safra 2025/26, antes estimada em 4,1%, pode se tornar negativa caso os prêmios voltem ao campo negativo. “O produtor do centro-oeste é o mais vulnerável a essa oscilação”, explicou Carlos Cogo, consultor da empresa.
Mesmo assim, o Brasil tende a manter a liderança nas exportações. Especialistas afirmam que, ainda que as tarifas sobre a soja dos EUA sejam reduzidas, o produto norte-americano continuará mais caro e menos competitivo que o brasileiro. Além disso, o grão nacional apresenta maior teor proteico e menor custo logístico em relação aos concorrentes.
De acordo com Matheus Pereira, diretor da Pátria Agronegócios, o possível acordo terá impacto inicial apenas psicológico sobre os mercados. “A China já criou uma relação estrutural com o Brasil ao longo da última década. Esse vínculo não se rompe facilmente”, avaliou.
A analista Marcela Marini, do Rabobank Brasil, observa que a eventual queda dos prêmios pode beneficiar a indústria esmagadora nacional, tornando a soja mais competitiva no mercado interno. “Isso deve favorecer as margens de esmagamento em 2026”, afirmou.
Mesmo com um novo pacto entre EUA e China, o consumo chinês de soja deve seguir forte, impulsionado pela demanda de ração para suínos. A consultoria Biond Agro projeta importações próximas de 110 milhões de toneladas na safra 2025/26, volume semelhante ao atual, com a América do Sul mantendo o protagonismo no abastecimento.
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