Carro elétrico ganha teto solar que produz 400 kWh por ano, mas tecnologia ainda está longe da autossuficiência.

Tecnologia

A ideia de deixar um carro elétrico estacionado ao sol e voltar horas depois com parte da energia recuperada começa a sair do campo puramente conceitual.

A montadora chinesa FAW Hongqi desenvolveu um protótipo de teto solar fotovoltaico baseado em perovskita e instalou o sistema no SUV elétrico Hongqi EHS7, também vendido na China como Tiangong 08.

Segundo informações divulgadas pela fabricante e repercutidas pelo setor automotivo, o teto consegue gerar cerca de 300 watts de potência em condições favoráveis de sol e tem produção estimada de aproximadamente 400 kWh ao longo de um ano.

O número parece elevado, mas ainda está longe de permitir que um veículo elétrico dispense os carregadores tradicionais.

De onde surgem as “seis recargas por ano”

Uma bateria hipotética de 60 kWh precisaria de 60 kWh para uma recarga teórica completa de 0% a 100%.

Dividindo os 400 kWh anuais anunciados pela Hongqi por essa capacidade, chega-se a cerca de 6,6 cargas completas equivalentes por ano.

Essa comparação, porém, serve apenas para dimensionar a quantidade de energia produzida.

O próprio projeto da Hongqi foi apresentado inicialmente como uma forma de alimentar sistemas de menor consumo do veículo, incluindo ar-condicionado, refrigeração e modo de vigilância, reduzindo o gasto da bateria de tração.

Na prática, a quantidade efetivamente aproveitada dependeria de fatores como incidência solar, temperatura, posição do veículo, sombras, perdas de conversão e condições climáticas.

Por que usar perovskita em vez do painel tradicional

Os painéis solares convencionais utilizam principalmente células de silício cristalino.

O problema é que esses módulos podem ser rígidos e mais difíceis de integrar às superfícies curvas de um automóvel.

A Hongqi optou pela perovskita, material que pode ser produzido em estruturas mais finas, leves e adaptáveis a formatos complexos. Essas características tornam a tecnologia atraente para aplicações em tetos panorâmicos e outras partes da carroceria.

O desenvolvimento, no entanto, também enfrenta desafios.

Materiais de perovskita podem ser sensíveis à umidade, ao oxigênio e à radiação ultravioleta, exigindo soluções específicas para garantir durabilidade em um automóvel exposto diariamente ao ambiente externo.

Tecnologia ainda é protótipo

O teto instalado no EHS7 permanece em fase de desenvolvimento.

Até agora, a Hongqi não anunciou uma data para produção em massa da solução.

A empresa também estuda ampliar a área fotovoltaica para outras partes da carroceria, como o capô.

Segundo estimativas apresentadas pela própria fabricante, um sistema futuro com área muito maior de células solares poderia chegar a gerar até 10 kWh por dia e, em condições ideais, fornecer energia equivalente a até 80 quilômetros de autonomia diária. Trata-se, contudo, de uma meta de desenvolvimento, e não do desempenho do teto atualmente testado.

Limite principal continua sendo a área disponível

O maior problema dos chamados carros solares é físico: um automóvel possui pouca área externa disponível para instalar células fotovoltaicas.

Mesmo com painéis muito eficientes, um teto tem apenas alguns metros quadrados de superfície para captar a radiação solar.

Isso limita a quantidade de eletricidade produzida quando comparada às dezenas de quilowatts-hora armazenadas nas baterias dos veículos elétricos modernos.

Por essa razão, o solar automotivo tende, no curto prazo, a funcionar mais como fonte complementar de energia do que como substituto da recarga em tomadas e carregadores rápidos.

Ganho pequeno pode ter utilidade real

A tecnologia não precisa necessariamente carregar toda a bateria para apresentar alguma vantagem.

Se o teto solar conseguir alimentar sistemas auxiliares durante períodos em que o veículo está estacionado, parte da energia que normalmente sairia da bateria principal pode ser preservada.

Em regiões com elevada incidência solar, isso pode representar algum ganho acumulado de eficiência ao longo do ano.

O protótipo da Hongqi mostra, portanto, que a energia solar já consegue ser integrada de maneira mais sofisticada aos carros elétricos.

O desafio agora é transformar alguns centenas de quilowatts-hora anuais em uma contribuição relevante para a autonomia, mantendo custo, durabilidade e eficiência compatíveis com a produção em larga escala.

Foto: Divulgação/FAW Hongqi –
Redação – Thiago Salles

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