Uma região aparentemente árida do Oregon, nos Estados Unidos, guarda abaixo de suas montanhas coloridas um arquivo natural capaz de revelar dezenas de milhões de anos da história da Terra.
O John Day Fossil Beds National Monument reúne camadas geológicas que preservam um registro fóssil superior a 40 milhões de anos, permitindo acompanhar profundas mudanças no clima, na vegetação e nos animais que viveram na região.
Entre os fósseis encontrados estão cavalos primitivos, animais semelhantes a rinocerontes, camelos, cães, felinos e integrantes de mais de 30 outras famílias de mamíferos.
Vulcões ajudaram a criar o arquivo fóssil
Grande parte dessa preservação está diretamente relacionada à intensa atividade vulcânica que atingiu o atual Oregon ao longo de milhões de anos.
As formações geológicas da região incluem derrames de lava, camadas de cinzas, tufos vulcânicos, fluxos de lama conhecidos como lahars e sedimentos depositados em rios, lagos e planícies de inundação.
Em alguns períodos, enormes volumes de lama, cinzas e detritos desceram pelas encostas vulcânicas e soterraram áreas florestais inteiras.
Esse processo cobriu restos de animais, madeira, sementes, folhas e frutos, protegendo parte do material da decomposição e permitindo sua fossilização.
Florestas inteiras foram soterradas
Um dos exemplos mais impressionantes aparece na Formação Clarno, cujas rochas têm aproximadamente entre 55 milhões e 39 milhões de anos.
Segundo o National Park Service, parte dessas camadas foi formada quando grandes fluxos de lama vulcânica engoliram florestas e seus habitantes.
Naquela época, o Oregon era muito diferente da paisagem atual.
A região apresentava clima quente e úmido, com ambiente subtropical e vegetação que incluía palmeiras e plantas relacionadas aos atuais abacateiros.
Nos depósitos de Clarno já foram identificadas dezenas de espécies de madeira petrificada, além de sementes, frutos e outros vestígios vegetais.
Pequenos cavalos e gigantes semelhantes a rinocerontes
A região também preserva animais que seriam praticamente irreconhecíveis para quem observa os mamíferos atuais.
No Hancock Mammal Quarry, uma área com cerca de 40 milhões de anos, pesquisadores encontraram fósseis de pequenos cavalos de três dedos, grandes animais semelhantes a rinocerontes chamados brontotérios e mamíferos parecidos com porcos e ursos.
Esses restos foram acumulados em sedimentos transportados por antigas enchentes e rios, mostrando que nem todos os animais foram enterrados diretamente por uma erupção vulcânica.
Em muitos casos, cinzas previamente depositadas foram carregadas pela água e misturadas a areia, argila e outros materiais antes de cobrir os organismos.
Paisagem mudou completamente com o passar do tempo
O registro fóssil permite acompanhar uma transformação gradual do Oregon.
Há cerca de 44 milhões de anos, predominavam ambientes quentes e úmidos.
Por volta de 30 milhões de anos atrás, as florestas começaram a ficar mais abertas. Entre 24 milhões e 20 milhões de anos atrás, as gramíneas passaram a ocupar espaço maior na paisagem, favorecendo animais adaptados à corrida e à vida em ambientes abertos.
Há cerca de 15 milhões de anos, pradarias já sustentavam animais de pernas longas, como cavalos e camelos, enquanto predadores semelhantes a grandes cães e felinos circulavam pela região.
Já há aproximadamente 7 milhões de anos, a paisagem lembrava mais o atual leste do Oregon, embora ainda fosse habitada por animais hoje desaparecidos da América do Norte, como elefantes, rinocerontes, camelos e preguiças-gigantes.
Diferentes formações contam capítulos distintos
O John Day Fossil Beds não representa um único episódio geológico.
A Formação Clarno registra principalmente o período entre aproximadamente 55 milhões e 39 milhões de anos atrás.
A Formação John Day, uma das mais ricas em fósseis, abrange aproximadamente 38 milhões a 18 milhões de anos.
A Formação Mascall registra ambientes de cerca de 16 milhões a 13 milhões de anos, enquanto a Formação Rattlesnake preserva registros de aproximadamente 8 milhões a 5 milhões de anos atrás.
Essa sequência permite comparar diferentes comunidades de animais e plantas que ocuparam praticamente a mesma região em épocas separadas por milhões de anos.
Não há dinossauros no local
Apesar da enorme riqueza paleontológica, o parque não é conhecido por fósseis de dinossauros.
O National Park Service explica que, durante grande parte da era dos dinossauros, a área que hoje corresponde à região estava submersa.
Os principais fósseis encontrados pertencem à chamada Era dos Mamíferos e das Plantas com Flores, especialmente entre aproximadamente 44 milhões e 7 milhões de anos atrás.
Painted Hills revelam história também pelas cores
Uma das áreas mais conhecidas do monumento é Painted Hills, famosa pelas faixas de cores avermelhadas, amareladas e esverdeadas.
Essas tonalidades refletem diferentes condições ambientais e processos de formação do solo ocorridos ao longo de milhões de anos.
O monumento possui três grandes unidades: Painted Hills, Sheep Rock e Clarno, distribuídas pelo leste do Oregon.
A própria erosão continua expondo novos materiais, permitindo que paleontólogos encontrem fósseis que permaneceram enterrados durante milhões de anos.
O resultado é um dos registros mais completos conhecidos das transformações ambientais e evolutivas ocorridas durante grande parte da história dos mamíferos.
O mesmo vulcanismo que destruiu repetidamente antigos ecossistemas acabou também criando as condições que permitiram que parte deles chegasse preservada até os dias atuais.

Foto: National Park Service –
Redação – Thiago Salles