Uma forte onda de cautela e preocupação tomou conta do setor agrícola na América do Sul. Um relatório alarmante divulgado nesta sexta-feira pela Bolsa de Grãos de Rosário revelou que os agricultores argentinos estão vendendo uma quantidade excepcionalmente baixa de suas safras, reagindo à queda acentuada dos preços a termo e à crescente instabilidade no mercado de commodities. O movimento de retenção de grãos acendeu o sinal de alerta para a oferta futura e ameaça travar o fluxo financeiro no campo.
No setor do trigo, o plantio da safra 2026/27 avançou rapidamente e já atingiu 82% da área prevista, recuperando-se com força após os atrasos provocados pelas chuvas no início da temporada. Contudo, o ritmo acelerado das máquinas não se repete nos escritórios de negócios: as vendas da nova safra somam apenas 2 milhões de toneladas até o momento, consolidando um dos inícios mais fracos registrados na última década. Esse montante equivale a meros 10,5% da produção estimada, ficando muito abaixo da média histórica de cinco anos para o período, que é de 16,6%. Desse volume comercializado, cerca de 690 mil toneladas sequer tiveram seus valores fixados.
A explicação para esse congelamento nas transações comerciais está diretamente ligada ao tombo dos preços internacionais. Os contratos futuros do trigo para entrega em dezembro, que chegaram a valer US$ 231 por tonelada entre abril e maio, despencaram para a casa dos US$ 206 no início de julho. Para piorar o cenário dos produtores vizinhos, o preço de exportação do trigo argentino gira em torno de US$ 227 por tonelada, o que o coloca em concorrência feroz e direta com fornecedores rivais do Hemisfério Norte, cujas safras volumosas estão esmagando as cotações globais. Caso os embarques para o exterior não ganhem tração, a Argentina poderá acumular estoques finais de 4,5 milhões de toneladas, o maior patamar desde a temporada 2014/15.
O cenário de braços cruzados estendeu-se também para a soja, mercado no qual os agricultores decidiram adiar as vendas mesmo diante de preços mais firmes. Apenas 42% da colheita esperada foi comprometida pelos produtores, e míseros 27% estão com valor fixo estabelecido — configurando o pior e mais baixo nível de comercialização das últimas três décadas. Por outro lado, o milho apresentou uma ligeira reação, com as vendas semanais subindo para 800 mil toneladas devido à entrada do grão plantado tardiamente no mercado. Ainda assim, os preços do milho continuam enfraquecidos, orbitando a marca de US$ 180 por tonelada, severamente pressionados pela oferta abundante e simultânea registrada tanto na Argentina quanto no Brasil.
Foto: Divulgação / Bolsa de Grãos de Rosário / Redação – Thiago Salles