A disputa entre governo Lula e bolsonaristas ganhou um novo capítulo em meio ao risco de os Estados Unidos ampliarem tarifas contra produtos brasileiros. O ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, Márcio Elias Rosa, acusou Flávio Bolsonaro de tentar usar uma viagem a Washington para se livrar do desgaste político de um possível tarifaço contra o Brasil.
Flávio é esperado nos Estados Unidos para participar de uma audiência pública relacionada à investigação da Seção 301, instrumento comercial usado por Washington para apurar práticas consideradas prejudiciais a empresas americanas. O procedimento envolve críticas a temas como comércio digital, meios de pagamento, propriedade intelectual, meio ambiente e outras políticas brasileiras.
Segundo Márcio Elias Rosa, a presença do senador seria pouco eficaz do ponto de vista técnico e teria objetivo eleitoral. O ministro afirmou que Flávio estaria buscando uma espécie de proteção política para não ser responsabilizado caso novas tarifas sejam aplicadas. Ele também citou Jair Bolsonaro, Eduardo Bolsonaro e Paulo Figueiredo entre os nomes que, na visão do governo, teriam contribuído para tensionar a relação entre Brasil e Estados Unidos.
A investigação americana prevê audiência pública nos dias 6 e 7 de julho, em Washington. O período de comentários ao processo terminou em 1º de julho, e o USTR indicou que a decisão final sobre eventuais medidas pode avançar até meados do mês. A proposta em análise prevê tarifas de 25% sobre parte dos produtos brasileiros, embora alguns setores relevantes tenham sido tratados com exceções ou regras específicas.
O governo brasileiro nega que suas políticas sejam injustas ou discriminatórias e enviou aos Estados Unidos uma manifestação contestando pontos da investigação. Um dos temas sensíveis é o Pix: o Brasil argumenta que o sistema funciona como infraestrutura pública de pagamentos e rejeita a tese de que ele prejudique de forma indevida empresas americanas.
Apesar da tentativa de negociação, o próprio ministro admitiu que um acordo amplo antes do prazo final é difícil. O governo afirma trabalhar com três cenários: evitar as tarifas, adiar uma decisão ou preparar medidas para reduzir danos a exportadores brasileiros. Entre as alternativas citadas estão a busca por novos mercados e o uso do programa Brasil Soberano para socorrer setores atingidos.
O caso, que começou como uma disputa comercial, virou munição política no Brasil. De um lado, o governo Lula tenta associar o risco de sanções ao entorno de Bolsonaro. Do outro, Flávio busca se apresentar como voz contrária ao tarifaço nos Estados Unidos. A decisão de Washington pode afetar empresas brasileiras e também aumentar a temperatura da corrida presidencial.
Foto: EPA – Redação – Thiago Salles