A internet adora criar mistérios extraordinários onde só existe a mais pura e simples realidade. A bola da vez nas redes sociais é uma teoria da conspiração bizarra que afirma que um quadro pintado no ano de 1562 traz a prova definitiva de que os seres humanos conviveram lado a lado com os dinossauros. Perfis de curiosidades e mistérios viralizaram a imagem apontando que, no fundo da obra, aparecem criaturas gigantescas de pescoço longo idênticas a dinossauros saurópodes (como o Braquiossauro). A publicação garantia que a tela era de um tal de “Peter Bruce Gale” e que mudaria a história da ciência. Mas tudo não passa de uma grande farsa.
O primeiro grande furo da teoria é que o pintor citado simplesmente não existe. A obra real se chama “O suicídio de Saul”, está guardada em um museu em Viena e pertence ao genial pintor flamengo Pieter Brueghel, o Velho, um dos maiores nomes do Renascimento. A cena retrata uma passagem bíblica sobre a derrota do rei Saul contra os filisteus. E o mistério dos supostos dinossauros foi desmascarado de forma cômica pelos historiadores: as criaturas de pescoço comprido ao fundo são, na verdade, camelos — só que desenhados de um jeito bem esquisito.
Naquela época, os artistas europeus frequentemente precisavam pintar animais exóticos vindos do Oriente Médio ou da África sem nunca terem visto um deles de perto na vida. O processo funcionava como um verdadeiro “telefone sem fio”: o pintor ouvia a descrição de alguém que viajou, tentava imaginar o bicho e o desenhava misturando a realidade com a imaginação. O olho humano moderno, acostumado com filmes de ficção, bate o olho no camelo pescoçudo e mal desenhado do século 16 e enxerga um monstro pré-histórico, provando que a internet é capaz de criar um dinossauro a partir de um simples erro de desenho.
Foto: Public Domain/Wikipedia
Redação: Thiago Salles