Uma nova geração de baterias desenvolvida por cientistas chineses pode representar um salto significativo na autonomia dos carros elétricos. Pesquisadores da Universidade de Nankai, em Tianjin, divulgaram resultados promissores de estudos envolvendo baterias semissólidas e de lítio metálico capazes de permitir que veículos elétricos rodem até 1.000 quilômetros com apenas uma carga.
Os resultados da pesquisa foram apresentados em um artigo científico publicado na revista Nature no final de fevereiro. Segundo o estudo, a nova bateria de lítio metálico atingiu uma densidade energética de aproximadamente 700 Wh/kg em temperatura ambiente, um dos maiores índices já registrados nesse tipo de tecnologia.
Atualmente, a maioria dos veículos elétricos disponíveis no mercado possui autonomia entre 350 km e 450 km por recarga, dependendo do modelo e das condições de uso. Com o avanço apresentado pelos pesquisadores, esse alcance poderia mais que dobrar em alguns casos.
Além disso, os cientistas afirmam ter testado uma bateria semissólida instalada em um veículo experimental para avaliação em condições reais de rodagem. Segundo os dados divulgados, essa célula possui densidade superior a 500 Wh/kg e permitiria autonomia superior a 1.000 quilômetros no padrão chinês de medição CLTC.
Quando convertida para padrões de medição mais conservadores, como os utilizados no Brasil, a autonomia estimada ficaria próxima de 700 quilômetros por carga, ainda assim um valor considerado bastante elevado para veículos elétricos atuais.
O avanço tecnológico foi possível graças a uma mudança na composição química do eletrólito utilizado na bateria. Os pesquisadores substituíram a coordenação baseada em oxigênio por uma estrutura baseada em flúor, utilizando solventes fluorados capazes de melhorar a condução dos íons dentro da bateria.
Segundo os cientistas, essa alteração aumenta a eficiência da movimentação dos íons de lítio e permite reduzir a quantidade de eletrólito necessária, o que contribui para elevar a densidade energética do sistema.
Outro ponto importante da tecnologia é a utilização de uma arquitetura semissólida. Diferentemente das baterias convencionais de íons de lítio, que utilizam eletrólitos líquidos inflamáveis, esse modelo combina elementos sólidos e líquidos para melhorar a estabilidade e a segurança do sistema.
Essa abordagem ajuda a reduzir o risco de incêndios e falhas térmicas, problemas que ainda representam um dos principais desafios para a indústria de veículos elétricos.
A tecnologia também busca impedir a formação de pequenas estruturas metálicas chamadas dendritos, que podem surgir dentro da bateria durante o carregamento e causar curtos-circuitos.
Ao combinar eletrólitos sólidos com um componente líquido de alta molhabilidade, os pesquisadores afirmam que é possível manter boa condução de íons sem comprometer a estabilidade estrutural da bateria.
Embora os resultados sejam promissores, especialistas destacam que ainda será necessário validar a tecnologia em larga escala antes de sua adoção comercial. Testes de durabilidade, segurança e custo de produção ainda precisam ser concluídos para que as baterias possam chegar ao mercado.
Mesmo assim, empresas do setor automotivo já demonstram interesse na inovação. O projeto envolve colaboração entre a universidade e empresas ligadas ao grupo automotivo chinês FAW, além da marca Hongqi.
Segundo representantes da indústria, o objetivo é acelerar a transição do protótipo para linhas de produção industrial. A expectativa é que veículos equipados com essas baterias possam entrar em produção até o final de 2026.
Se confirmada em larga escala, a tecnologia pode representar um avanço importante para o setor de mobilidade elétrica, reduzindo uma das principais preocupações dos consumidores: a autonomia limitada e o tempo necessário para recarregar veículos elétricos.

Foto: Getty Images
Redação – Thiago Salles