Povos tradicionais reforçam na COP30: acesso direto a recursos climáticos é questão de sobrevivência

Brasil

A COP30, realizada em Belém, tornou-se palco para uma pauta que ganha força entre os debates climáticos: a defesa do acesso direto ao financiamento internacional por parte dos povos que vivem e protegem os territórios mais estratégicos para o equilíbrio climático do planeta. Indígenas, afrodescendentes, ribeirinhos e extrativistas têm buscado espaço na conferência para denunciar a baixa representatividade nas negociações e reivindicar que os recursos cheguem sem intermediários.

Foto: Bruno Peres

As manifestações realizadas ao longo do evento, algumas tentando romper bloqueios da ONU para serem ouvidas, refletem um descontentamento crescente. Segundo Raquel Biderman, vice-presidente da Conservation International nas Américas, a discrepância no fluxo de recursos é evidente: embora cerca de 30% das soluções climáticas venham diretamente da natureza, apenas 3% de todo o financiamento climático global é destinado a iniciativas ambientais — e somente 1% desse montante alcança os povos que cuidam das florestas.

Para as populações amazônicas, que mantêm estoques de carbono essenciais para evitar o avanço do aquecimento global acima de 1,5°C, a falta de investimento representa risco direto à sobrevivência física, cultural e territorial. “Eles querem acesso direto porque são eles que garantem que o carbono não vá para a atmosfera”, afirma Biderman. O Brasil sozinho abriga 1,7 milhão de indígenas, parte dos 511 povos que vivem em toda a Amazônia, dos quais 391 estão em território nacional.

Modelos de pagamento por serviços ambientais, turismo comunitário e sistemas agroflorestais já demonstram eficiência, mas não conseguem ganhar escala por falta de financiamento contínuo. A COP30 abriu espaço para novas alternativas, incluindo o Fundo Florestas Tropicais para Sempre (TFFF). Mesmo assim, o volume de recursos ainda está distante do necessário. Conforme estimativa do Banco Mundial, seriam precisos US$ 7 bilhões anuais apenas para garantir a conservação da Amazônia — hoje, apenas US$ 600 milhões são investidos.

Outro ponto destacado pelos movimentos sociais é a insegurança gerada pela presença de economias ilegais em áreas remotas da floresta. Segundo especialistas, sem alternativas econômicas sustentáveis, jovens podem ser aliciados por organizações criminosas que exploram madeira, tráfico ou mineração.

Para as lideranças locais, o caminho passa por fortalecer a bioeconomia. Mais de 100 cadeias produtivas da Amazônia poderiam gerar renda e oportunidades sem romper o vínculo ancestral com os territórios. “Financiamento direto é o que pode evitar que a juventude seja tomada pelo crime e garantir que essas comunidades continuem existindo onde sempre estiveram”, defendem os movimentos.

Em Belém, marchas, encontros paralelos e ocupações simbólicas reforçaram o recado: soluções climáticas só serão duradouras quando as populações que protegem os ecossistemas forem incluídas como protagonistas e tiverem autonomia sobre os recursos destinados à preservação.


Foto: Bruno Peres
Redação Brasil News

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