No coração de Belém, a poucos quilômetros dos espaços onde ocorrem as discussões globais da COP30, a comunidade da Vila da Barca vive uma realidade que traduz, de forma crua, os desafios da justiça climática no Brasil. Erguida sobre palafitas às margens da baía do Guajará há mais de um século, a área — uma das maiores comunidades urbanas desse tipo na América Latina — enfrenta riscos crescentes decorrentes das chuvas intensas, das marés e do avanço da crise ambiental.

Cleonice da Silva Vera Cruz, aposentada de 77 anos, moradora da comunidade da Vila da Barca, em palafitas na baía do Rio Guajará – Foto Tânia Rêgo
Entre as casas de madeira desgastadas pelo tempo vive Cleonice Vera Cruz, de 77 anos, que há quase seis décadas chama a Vila da Barca de lar. “Quando venta forte, tudo balança. E quando chove, molha tudo por dentro”, relata, enquanto tenta drenar a água acumulada após mais uma tempestade.
O medo se intensificou após o desabamento de uma das palafitas na semana passada. Quatro moradores conseguiram escapar antes da queda, alertados por estalos que antecederam o colapso da estrutura. Vizinhos tiveram suas casas comprometidas e precisaram ser acolhidos por outros moradores, reforçando a união de uma comunidade marcada por constante vulnerabilidade.
Para os líderes locais, a realidade da Vila da Barca deve ocupar espaço central nos debates ambientais. Gerson Siqueira, presidente da Associação de Moradores, afirma que a discussão climática não pode ignorar as populações mais impactadas. “Fala-se de transição energética e financiamento verde, mas e quem vive sem saneamento, sem segurança estrutural, exposto a riscos diários? Isso também é crise ambiental”, destaca.
A situação da Vila da Barca reflete dados divulgados pela ONG Habitat para a Humanidade Brasil durante a COP30: mais de 66% da população que vive em áreas de risco no país é negra, e grande parte das moradias não possui saneamento básico. Os números ressaltam como a crise climática reacende desigualdades históricas — fenômeno reconhecido por especialistas como racismo ambiental.
Um exemplo dessa realidade é a diarista Maria Isabel Cunha, conhecida como Bebel, mãe solo de dois meninos, um deles com deficiência. Sem emprego fixo, ela vive de pequenos trabalhos e da pensão do filho. “O dinheiro não dá nem para ajeitar a casa. Queria uma oportunidade melhor, mas também preciso cuidar do meu filho”, diz.
Apesar da proximidade com o centro revitalizado de Belém — transformado para receber a conferência — muitos moradores pouco sabem sobre as discussões globais. Alguns, como Bebel, notam apenas as mudanças visuais na cidade. Outros, como Cleonice, acompanham pela TV e se impressionam com a presença de povos indígenas na capital.
O bairro onde está a Vila da Barca passa por obras de saneamento feitas pela concessionária Águas do Pará, que instalou hidrômetros individuais e deve concluir o sistema de esgoto até abril do próximo ano. Mesmo assim, para os moradores, as melhorias só terão efeito real quando houver acesso a moradias seguras e dignas.
A comunidade, apesar das dificuldades, preserva forte identidade cultural, com festas populares, blocos de carnaval e participação no Círio de Nazaré. Mas a permanência das famílias depende de políticas públicas que considerem adaptação climática, infraestrutura e respeito às comunidades tradicionais.
Especialistas da Habitat Brasil alertam que apenas 8% das metas climáticas globais mencionam favelas e territórios vulneráveis. Para eles, enfrentar os efeitos da crise climática exige fortalecer essas comunidades, e não removê-las. “A solução não é apagar territórios, mas garantir condições dignas para que essas pessoas continuem vivendo onde construíram sua história”, reforça a ONG.
Foto: Tânia Rêgo
Redação Brasil News