O prédio que serviu como sede do Departamento de Ordem Política e Social (Dops), no centro do Rio de Janeiro, caminha para ser oficialmente tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan). A decisão final está prevista para o próximo dia 26 de novembro, durante reunião do Conselho Consultivo do órgão, que será transmitida ao vivo pela internet.

Sala de interrogatório com revestimento original de isolamento acústico Foto: Felipe Nin/Divulgação/Coletivo RJ Memória, Verdade, Justiça e Reparação
A proposta de tombamento tramita há mais de dez anos e tem como objetivo preservar o valor histórico, arquitetônico e simbólico do edifício, que foi palco de prisões, interrogatórios e torturas durante os períodos de repressão política no Brasil, especialmente no Estado Novo e na ditadura militar.
Em nota, o Iphan destacou que o imóvel representa “um marco na luta social e política pela democracia e pela liberdade”. Caso o tombamento seja confirmado, qualquer modificação no prédio dependerá de autorização do instituto, garantindo a preservação de seus elementos originais.
O movimento Ocupa Dops e diversas entidades de direitos humanos apoiam a iniciativa e pedem que o espaço seja transformado em um centro de memória sobre as vítimas da repressão.
Inaugurado em 1910, o prédio foi construído com inspiração francesa para abrigar a antiga Polícia Federal. Com celas, salas de interrogatório com isolamento acústico e afrescos originais, o edifício permanece fechado há mais de uma década e em estado precário de conservação.
De acordo com o arquiteto e pesquisador Felipe Nin, do Coletivo RJ Memória, Verdade, Justiça e Reparação, a estrutura ainda preserva itens autênticos da época da repressão, como mobiliário original, inscrições nas paredes das celas e documentos históricos.
“O Dops é um testemunho vivo da violência do Estado. Ele deve ser preservado como lugar de memória, não apagado”, afirmou Nin, que também é sobrinho de Raul Amaro Nin, morto sob tortura em 1971.
Entre os presos políticos que passaram pelo local estão Olga Benário, Nise da Silveira, Luís Carlos Prestes e Abdias Nascimento. A antiga carceragem feminina ainda guarda inscrições datadas das décadas de 1950 e 1980, feitas por mulheres encarceradas durante o regime militar.
O Ministério Público Federal acompanha o processo e já alertou para o risco de descaracterização do espaço. Um projeto da Polícia Civil, que prevê a criação de um centro cultural no edifício, foi criticado por entidades de direitos humanos por ignorar o passado repressivo do local.
“Transformar o antigo Dops em um espaço que exalte a história policial sem reconhecer os crimes cometidos ali seria um novo apagamento”, alertou Nin.
O prédio pertence à União e está cedido à Polícia Civil do Rio desde a década de 1960. Com o tombamento, o imóvel não poderá sofrer reformas que alterem seu valor histórico.
Ex-presos políticos, como a farmacêutica Ana Bursztyn Miranda, destacam a importância da preservação do local como forma de evitar que a tortura e a violência de Estado se repitam.

Sala que foi gabinete do ex-chefe de polícia Filinto Müller Felipe Nin/Divulgação/Coletivo RJ Memória, Verdade, Justiça e Reparação
“A memória é uma forma de resistência. Lembrar o que aconteceu é impedir que aconteça de novo”, declarou Ana, que foi presa três vezes durante a ditadura.
📸 Foto: Felipe Nin / Divulgação / Coletivo RJ Memória, Verdade, Justiça e Reparação
✍️ Redação Brasil News