A rotina de milhares de moradores de Kiev está mudando diante de uma nova fase dos ataques russos contra a capital ucraniana.
Depois de mais de quatro anos de guerra, pessoas que haviam aprendido a conviver com alarmes, explosões e noites interrompidas relatam que os ataques recentes ficaram mais difíceis de prever e deixaram menos tempo para procurar abrigo.
O cenário é agravado pelo uso de mísseis balísticos, capazes de chegar ao alvo em poucos minutos após a detecção.
Em 17 de setembro, um ataque combinado com mísseis e drones atingiu Kiev e deixou 20 pessoas feridas, entre elas duas crianças. Prédios residenciais, instalações educacionais, escritórios, armazéns, veículos e estruturas ferroviárias foram danificados.
Moradores deixam apartamentos por medo de não chegar ao abrigo
Entre os moradores afetados está Daria, de 27 anos, que durante grande parte da guerra continuou vivendo em seu apartamento no nono andar de um prédio em Kiev.
Ela seguia uma prática conhecida entre os ucranianos como “regra das duas paredes”, buscando durante os bombardeios um ponto do imóvel protegido do exterior por pelo menos duas estruturas internas.
Neste verão europeu, porém, decidiu abandonar temporariamente a residência.
Segundo relato dado à BBC News Ukraine, a jovem concluiu que o tempo entre o acionamento dos alertas e a chegada de determinados mísseis já não permitia que ela percorresse com segurança o caminho até o abrigo mais próximo.
Daria passou a morar em uma casa da família em Romankiv, cerca de 30 quilômetros distante de Kiev, mesmo precisando enfrentar um longo deslocamento diário até seu trabalho.
Mísseis balísticos reduzem tempo de reação
Uma das principais preocupações dos moradores está ligada ao uso crescente de armamentos capazes de chegar à capital rapidamente.
Ao contrário de aeronaves e de alguns tipos de drones, cujas rotas podem dar às autoridades mais tempo para emitir alertas, mísseis balísticos podem deixar uma janela muito pequena entre a detecção e o impacto.
Isso significa que, em determinadas situações, pessoas que vivem em andares altos podem não ter tempo suficiente para sair do prédio e alcançar um abrigo subterrâneo.
O ataque de 17 de setembro exemplificou essa ameaça. Explosões foram registradas em diferentes áreas da capital e o número de feridos aumentou ao longo das horas seguintes, chegando a 20. Cinco pessoas permaneciam internadas.
Idosa de 98 anos enfrenta ataques dentro de casa
Para alguns moradores, deixar o apartamento sequer é uma possibilidade.
Olha Vlasova, de 62 anos, vive com a mãe, Nadia Tsybina, de 98 anos, que não consegue sair da cama.
Durante alertas de ataque aéreo, Olha improvisa formas de reduzir os riscos dentro do próprio imóvel. Ela coloca um colchão diante da janela para tentar proteger o ambiente de estilhaços e busca abrigo em uma área interna da residência.
Nadia cobre a cabeça com um travesseiro.
A situação mostra um dos maiores desafios dos ataques urbanos: idosos, pessoas com deficiência ou mobilidade reduzida nem sempre conseguem chegar aos abrigos públicos durante os poucos minutos disponíveis.
Famílias mantêm torniquetes e apitos em mochilas
Outros moradores passaram a transformar medidas de emergência em parte da rotina familiar.
Natalia Bushkovska, de 37 anos e mãe de dois filhos, afirmou à BBC que mantém três alternativas de proteção dependendo da intensidade do ataque: ficar no corredor do apartamento, buscar o corredor coletivo do edifício ou descer ao porão.
Uma mochila permanece pronta com itens emergenciais.
Entre eles estão um torniquete para conter hemorragias e um apito, pensado para permitir que equipes de resgate encontrem a família caso o edifício seja atingido e eles fiquem presos sob escombros.
A filha de nove anos também mantém sua própria bolsa de emergência.
Escolas e metrô também sentem impacto
A escalada dos ataques não afeta apenas as noites dos moradores.
Escolas, comércio e o sistema de transporte público também interrompem atividades quando as sirenes são acionadas.
Em estações subterrâneas do metrô, passageiros frequentemente buscam proteção durante os ataques. Em períodos de ofensivas mais intensas, algumas pessoas permanecem por horas debaixo da terra.
Nas áreas onde as estações são construídas na superfície, o funcionamento pode ser suspenso durante alertas, dificultando a circulação entre diferentes regiões da cidade.
Para famílias com crianças, a rotina escolar também passou a incluir longos períodos em abrigos subterrâneos.
Ataques continuam atingindo civis
A pressão sobre Kiev permanece elevada.
Além do ataque de 17 de setembro, uma ofensiva russa com drones na região de Kiev durante o fim de semana matou quatro civis, incluindo três crianças, segundo autoridades ucranianas.
Moscou afirma regularmente que suas operações têm como alvo instalações militares e infraestrutura relacionada ao esforço de guerra ucraniano. Autoridades de Kiev, por outro lado, relatam repetidamente danos a residências e outras estruturas civis.
A guerra segue atingindo também território russo, onde a Ucrânia ampliou ataques com drones contra instalações militares, energéticas e logísticas. No fim de semana, Moscou sofreu o que autoridades descreveram como o maior ataque de drones contra a capital russa desde o início da guerra.
Para os moradores de Kiev, no entanto, o efeito mais imediato da escalada está dentro de casa: noites sem dormir, crianças treinadas em primeiros socorros, corredores transformados em abrigos e famílias calculando diariamente quantos minutos terão para se proteger do próximo ataque.
Foto: BBC News Ukraine –
Redação – Thiago Salles