A cidade de Barcelona, um dos destinos mais cobiçados do planeta, decidiu traçar uma linha vermelha definitiva contra o avanço descontrolado da indústria do turismo. Com quase 16 milhões de visitantes anuais, a capital da Catalunha enfrenta há uma década um processo severo de gentrificação, disparada nos preços dos imóveis e a descaracterização de seus bairros mais tradicionais, hoje sufocados por lojas de lembranças baratas e restaurantes padronizados. Diante desse cenário, a prefeitura local aposta em uma estratégia ousada comandada por José Antonio Donaire, recém-nomeado comissário para o turismo sustentável e professor da Universidade de Girona.
Em entrevista adaptada pelo The New York Times, Donaire foi categórico ao resumir a nova diretriz municipal: “Nem mais um turista”. A cidade estabeleceu o volume de 15,7 milhões de visitantes registrados em 2025 como o teto histórico e absoluto da capacidade urbana. Para conter a demanda sem adotar uma postura puramente hostil, o planejamento foca em asfixiar a infraestrutura de hospedagem informal — incluindo a proibição total de aluguéis de temporada a partir de 2028 — e em remodelar o perfil de quem visita a região, estimulando nichos de negócios e turismo cultural de base comunitária em detrimento do turismo de massa e lazer puro.
Entre as medidas mais drásticas anunciadas está a ofensiva contra os grandes navios de turismo. A administração quer reduzir a zero o número de passageiros de cruzeiros que fazem apenas paradas de um dia e não se hospedam na cidade. Para inviabilizar esse modelo, a prefeitura solicitará autorização para elevar as taxas de desembarque ao teto máximo permitido por lei. O comissário defende que as pesadas tarifas cobradas sobre a cadeia turística devem cobrir integralmente os custos de segurança, saneamento e transporte público gerados pelos estrangeiros, poupando o orçamento dos moradores. “Os turistas estão financiando a ‘desturistificação’ de Barcelona”, explicou Donaire.
O projeto piloto dessa retomada de identidade urbana tem como vitrine o icônico mercado La Boqueria (Mercat de Sant Josep). Dominado por copos de frutas cortadas e frituras para viagem que afugentaram a clientela local, o espaço passará por uma reestruturação comercial para garantir que a maioria das barracas volte a vender produtos frescos e carnes voltados para quem realmente cozinha em casa. A mesma lógica de preservação do comércio tradicional de bairro — por meio de subsídios a pequenas padarias, livrarias e mercearias — será aplicada na avenida Las Ramblas, o coração pulsante da cidade, visando devolver aos barceloneses o direito e o prazer de ocupar seus próprios espaços públicos em perfeita harmonia.

Foto: Edu Bayer/NYT / Redação – Thiago Salles