China transforma deserto em usina gigante e usa painéis solares como arma contra a areia.

Internacional

A China está usando painéis solares para muito além da geração de energia. Em regiões áridas do norte e do oeste do país, grandes estruturas fotovoltaicas passaram a funcionar como uma espécie de escudo contra o avanço da areia, criando sombra, reduzindo a força do vento próximo ao solo e protegendo cultivos resistentes à seca. Em Ningxia, no noroeste chinês, plantações de goji crescem sob milhares de módulos solares instalados em áreas antes marcadas pela degradação.

O projeto chama atenção porque une três interesses estratégicos em uma única área: produção de eletricidade limpa, recuperação ambiental e uso agrícola de terrenos pouco produtivos. Na instalação operada pela Ningxia Baofeng Energy Group, nos arredores de Yinchuan, trabalhadores cuidam dos arbustos sob os painéis, enquanto as estruturas ajudam a diminuir a perda de umidade em um ambiente seco e vulnerável à erosão.

A lógica é simples, mas poderosa. Os painéis bloqueiam parte da radiação direta do sol, reduzem a evaporação e criam um microclima menos agressivo para a vegetação. Ao mesmo tempo, as plantas ajudam a fixar o solo, diminuindo o deslocamento da areia. Segundo a Reuters, a China pretende instalar 253 GW de energia solar entre 2025 e 2030 em projetos ligados à recuperação de aproximadamente 7 mil km² de terras degradadas.

A iniciativa faz parte de uma guerra antiga do país contra a desertificação. Desde 1978, o programa conhecido como Three-North Shelterbelt busca conter o avanço dos desertos no norte, nordeste e noroeste da China. Mesmo após décadas de reflorestamento e manejo do solo, áreas desertificadas ainda representavam 26,8% do território chinês em 2024, mostrando que a recuperação avança lentamente e exige ações de longo prazo.

O uso de usinas solares em regiões áridas também ajuda a aliviar outro problema: a disputa por terras férteis. Com regras mais rígidas contra a instalação de painéis em áreas agricultáveis, a China passou a direcionar parte dos grandes projetos para desertos e zonas semiáridas, onde há alta incidência solar e menor concorrência com a produção de alimentos.

Apesar do potencial, especialistas alertam que a tecnologia não elimina desertos nem resolve sozinha o problema ambiental. Projetos em áreas remotas exigem transmissão de energia, manutenção constante e cuidado para não gerar novos impactos em ecossistemas frágeis. Ainda assim, o modelo chinês mostra uma mudança de estratégia: transformar áreas degradadas em espaços de energia, cultivo e contenção da areia ao mesmo tempo.

Se der certo em grande escala, o deserto pode deixar de ser visto apenas como território perdido e passar a ser peça central da transição energética. A China aposta que os mesmos painéis capazes de abastecer cidades também podem proteger plantações, segurar o solo e redesenhar regiões castigadas pela seca.

Foto: REUTERS/Lewis Jackson
Redação – Thiago Salles

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