Quem nasceu entre o fim dos anos 1950 e o início dos anos 1970 cresceu em um ambiente muito diferente do atual. A infância era menos vigiada, menos organizada por adultos e muito mais marcada por rua, tédio, conflitos entre crianças e pequenas frustrações resolvidas sem intervenção imediata dos pais. A discussão voltou à tona após publicação da Super Rádio Tupi, assinada por Vanessa Ramos, sobre a relação entre autonomia infantil e força emocional.
A tese central não é que aquela geração teve uma criação melhor, mas que precisou desenvolver recursos emocionais por necessidade. Sem adultos resolvendo tudo a cada instante, muitas crianças aprendiam a negociar, esperar, perder, improvisar e lidar com o desconforto. Para pesquisadores da área do desenvolvimento infantil, esse tipo de experiência funciona como um treino real de autorregulação emocional.
O debate ganhou respaldo em um estudo de Peter Gray, David Lancy e David Bjorklund, publicado em 2023 no Journal of Pediatrics. Os autores relacionam a queda das atividades independentes das crianças, como brincar, circular e assumir pequenas responsabilidades longe do controle direto dos adultos, ao declínio do bem-estar mental infantil e adolescente ao longo das últimas décadas.
Na prática, o que antes era visto como rotina comum — brincar na rua, resolver brigas com colegas, lidar com o tédio e testar limites físicos em brincadeiras — passou a ser cada vez mais substituído por supervisão constante, agenda cheia e respostas rápidas dos adultos. O problema, segundo essa linha de pesquisa, é que a proteção excessiva pode reduzir justamente as oportunidades que ajudam a criança a construir confiança, paciência e tolerância à frustração.
Isso não significa defender abandono, ausência de cuidado ou romantizar um passado que também tinha falhas. O ponto levantado pelos pesquisadores é outro: crianças precisam de espaços seguros para experimentar autonomia. Pequenos riscos, decisões próprias e tempo livre sem controle permanente podem ser fundamentais para formar adultos mais preparados emocionalmente.
A geração de 1958 a 1971, portanto, não teria se tornado mais resistente por ter sofrido mais ou por ter tido pais “melhores”. Ela teria sido obrigada a aprender cedo que nem todo problema recebe solução imediata. E é justamente essa lição, hoje quase eliminada pela superproteção, que reacende uma pergunta incômoda sobre a infância moderna: proteger demais também pode enfraquecer.
Foto: Reprodução/Super Rádio Tupi
Redação – Thiago Salles