O derretimento do solo congelado na região mais fria do planeta acabou de trazer à tona um dos mistérios mais fascinantes da história animal. Moradores locais que caminhavam perto da cidade de Yakutsk, na gelada Sibéria, tomaram um susto ao encontrar o corpo perfeitamente intacto de um filhote de canino que viveu há nada menos que 18 mil anos, durante a Era do Gelo. O bicho estava tão protegido pelo permafrost (o gelo eterno do subsolo) que parecia ter morrido poucas horas antes, mantendo o focinho aveludado, as garras, os cílios e até os delicados bigodes completamente preservados pela natureza.
A descoberta bizarra foi levada às pressas para o Centro de Paleogenética da Suécia, onde os maiores cientistas da Europa começaram uma verdadeira investigação criminal de DNA para descobrir a identidade do bicho. O caso deu um nó na cabeça dos pesquisadores: nas primeiras análises, o código genético do filhote não batia nem com o de um cachorro moderno e nem com o de um lobo. Por causa disso, os especialistas suspeitaram que ele seria o elo perdido da evolução — um ancestral direto e comum que viveu exatamente na época em que os primeiros lobos começaram a ser domesticados pelos seres humanos e a virar os “melhores amigos” do homem.
O filhote, que tinha apenas dois meses de vida quando morreu sem sofrimento, foi batizado pelos cientistas russos de “Dogor”, uma palavra que na língua local significa exatamente “amigo” (e que também funciona como um trocadilho perfeito em inglês para Dog or Wolf – Cachorro ou Lobo). Anos após a descoberta, análises genéticas avançadas publicadas na renomada revista Nature finalmente mataram a charada e confirmaram que Dogor era, na verdade, um lobo antigo de uma espécie que ajudou a dar origem aos cães atuais. O achado prova que o gelo funciona como uma verdadeira máquina do tempo capaz de reescrever o passado da Terra.
Foto: Sergey Fedorov/Divulgação
Redação: Thiago Salles